Alguém. Esse alguém que finge ser o que não é. Que diz sentir o que não sente, que sente. A dualidade mantém-se vazia, pálida e retumbante. Chove lá fora. O calor da chuva difunde o sabor do fresco cheiro a terra molhada. Espirra-se indiferença. A mágoa pinta as palavras com um tom de negro, reflectido e iluminado pelo brilho exacerbado do televisor. Chove lá fora. As pequenas coisas são as que ficam. As pequenas pequenas coisas boas e as pequenas grandes coisas más. Despe-se e despista-se o cheiro agudo daquela voz. Abre-se a porta. Flui o sangue e o sabor a azedo. O tocar inóspito e áspero nos objectos rasgados atinge-nos mais que aquele alguém distorcido, marcado pelo flash no pedaço de madeira e vidro da cabeceira. Chove lá fora. Tomba no sofá aquilo que resta da imagem reflectida (a outra continua sempre intacta). Suspira-se. Rola, pelo chão de madeira, uma embalagem vazia, duas... Atropelam-se depois da queda, tentando aprisionar vagas memórias. No telemóvel desperta “I am Jen – Broken in all the right places”. Irónico? Abre uma janela, pestaneja. Chove lá fora. --------> Acorda, agora sim. Rasga o soro. Ultrapassa tudo e todos. A brevidade e ligeireza levam a impelir a porta. Adivinha-se um verde, um verde inconfundível: relva acabada de cortar que deixa transpirar o seu cheiro. Lama: muita, mas mentalmente. Chove, uma chuva de verão, num dia quente como tantos outros, que ferve, lava e leva consigo o desespero. Resta um sorriso. Alguém que, afinal, é. Chove.